História do Caminho de Santiago de Compostela
Do Século I ao Século V

Diz a tradição que Jesus escolheu doze companheiros para serem seus discípulos mais próximos, segui-lo e com ele aprender uma nova filosofia que veio a ser o Cristianismo. Estes companheiros foram, após a morte de Cristo, chamados de apóstolos, palavra que em grego significa “enviados”. Pois os doze foram enviados aos quatro cantos do mundo para transmitir os ensinamentos cristãos.

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Entre estes doze apóstolos, havia dois com o nome Tiago. Um deles, filho de Zebedeu, é também chamado Tiago Maior (para distingui-lo do outro, filho de Alfeu, o Tiago Menor). Seis anos após a morte de Cristo, este Tiago, o Maior, viajou para a península Ibérica, onde passou vários anos divulgando sua mensagem, na região que hoje é a Galícia, talvez chegando até Zaragoza. Embora muito poucos dos habitantes locais tenham se convertido ao Cristianismo, Tiago deixou plantada nestas terras distantes a primeira semente, que viria a florescer pelos séculos futuros. Retornando a Palestina, o apóstolo morreu como mártir no ano 44, decapitado, por ordem do rei Herodes Agripa. Seu corpo insepulto, jogado aos cães por ordem do rei, foi recolhido por seus discípulos Teodoro e Atanásio.

Tiago havia manifestado o desejo de ser enterrado em terras ibéricas, e diz a lenda que seu corpo foi transportado por seus discípulos para a Espanha em uma nau de pedra guiada por anjos. É mais provável que tenha sido levado em um navio mercante comum, porém já em seu ataúde de pedra, daí ter nascido esta antiga crença. O apóstolo foi então sepultado na cidade de Iria Flavia (assim denominada em homenagem ao imperador romano Flávio Vespasiano), atualmente nos arredores da cidade de Padrón., próximo à costa ocidental da Galícia. Esta região era chamada pelos romanos de Finis Terrae, isto é, os confins da Terra, por ser o ponto mais ocidental da Europa, além do qual nada mais há que o Oceano.

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Há evidências que sugerem ter havido peregrinações esparsas ao local desde os primeiros séculos da era cristã. Porém com as invasões bárbaras, a queda do Império Romano e, posteriormente, com as invasões muçulmanas, o túmulo acabou sendo “esquecido”, ou perdido.


A história do Caminho de Santiago de Compostela
Do Século VI ao Século X

No ano 813, um monge chamado Pelayo, retirou-se para viver como eremita no bosque de Libredón na colina circundada pelos rios Sar e Sarela. Neste local havia duas antigas necrópoles (cemitérios) abandonadas, uma romana e outra visigótica. Avistando uma chuva de estrelas que parecia cair sobre um determinado ponto, e interpretando esta visão como um sinal divino, Pelayo foi examinar o local e ali encontrou o velho sepulcro. Informou então ao bispo galego Teodomiro o que havia achado em um “campo de estrelas”, isto é, em um campus stellae, em latim, origem da palavra Compostela.

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O bispo, pelas inscrições no sepulcro, confirmou que se tratava do túmulo do apóstolo Tiago que, segundo a secular tradição havia sido sepultado naquele local, a beira do rio Ulla, próximo a uma antiga estrada romana. Foram também identificados os túmulos de Teodoro e Atanásio, os dois discípulos, que estavam sepultados ao lado do mestre.

O rei de Astúrias, Alfonso II, o Casto, (791 – 842), ao tomar conhecimento da descoberta, nomeou São Tiago como patrono oficial da Espanha e ordenou a construção de uma capela de pedra sobre o sepulcro, o que foi realizado no ano 829. Os primeiros documentos históricos que relatam a existência de peregrinações ao “campo de estrelas” datam do ano 840, e o local aos poucos tornou-se um centro de devoção reconhecido pela Igreja. 

Na batalha de Clavijo, no ano 842, as tropas cristãs de Astúrias e León, apesar de sua grande inferioridade numérica, derrotaram os árabes do reino da Andaluzia. Nasceu então a lenda de que São Tiago, montado em um cavalo branco, lutando bravamente, havia participado pessoalmente da batalha. O santo foi visto por muita gente, e a fama de Santiago Matamoros (“mata mouros”), com sua espada invencível, espalhou-se rapidamente por toda a Europa. O culto ao apóstolo passou a ser a partir de então o foco espiritual e o símbolo de resistência que deu energia à Reconquista (a luta contra os muçulmanos). Desde então, e até hoje, a espada com o punho em forma de cruz é um dos símbolos do apóstolo Tiago.

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No ano 950 Gotescalco, bispo de Le Puy (na França), tornou-se a primeira grande autoridade a visitar Compostela como peregrino, dando um exemplo que foi seguido inúmeras vezes pelos séculos futuros.

O rei de Astúrias, Alfonso III, o Grande, (866 – 910), ordenou então que fosse construída no local uma igreja maior que a anterior. No ano 997 o antigo templo sobre o túmulo foi destruído e incendiado pelos mouros sob o comando de Abu Amir al-Mansur, conhecido pelos espanhóis como Almanzor, primeiro-ministro do Califado de Córdoba.  

A história do Caminho
Do Século XI ao Século XV


A partir do século X, com o progresso da Reconquista, e o crescimento dos territórios cristãos na península Ibérica dando origem a novos reinos que se unem em torno da causa comum, a peregrinação tornou-se mais segura e o número de estrangeiros dirigindo-se a Santiago gradualmente cresce.

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Sancho III, o Grande, rei de Navarra (992 – 1035), trouxe para a Espanha a ordem de Cluny, e com ela a arte românica. Este estilo arquitetônico, com construções gigantescas representando o ideal cristão, está presente em numerosas igrejas do Caminho. Os monges ocuparam todo este território devastado por séculos de guerra, construindo mosteiros e hospitales (albergues) ao redor dos quais nasceram novos burgos. Ramiro I, o primeiro rei de Aragão (1035 – 1066), filho de Sancho III da Navarra, criou a infra-estrutura para a rota que vinha de Somport, denominado Caminho Aragonês. Alfonso VI, o Bravo, rei de Castela e León (1065 – 1109), forneceu também proteção real ao Caminho, dando todo apoio a Santo Domingo para conservar as estradas no território castelhano.

No ano 1064 Don Rodrigo Díaz de Vivar, El Cid, o herói da luta contra os mouros, chega a Compostela como peregrino. Onze anos depois iniciam-se as obras para a construção da atual catedral compostelana, terminada em 1128.

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Em 1119 o papa Calixto reconheceu Compostela como um dos três centros cristãos de peregrinação. O primeiro Ano Santo, em que foi dado o perdão aos peregrinos, foi 1126. Os fiéis que iam a Roma eram denominados “romeiros” (de onde nasceu a palavra “romaria”, o ato de ir a Roma), os que iam a Jerusalém eram os “palmeiros” por levarem uma folha de palma, símbolo de sua caminhada, e os que iam a Compostela eram chamados de “peregrinos”, isto é, os que atravessam o campo (per + agro). Em 1179 o papa Alexandre III tornou permanente o Ano Santo

O sacerdote Aymeric Picaud, de Poitou peregrinou a Santiago em 1139, e com base em suas observações escreveu o primeiro guia do Caminho, conhecido como o “Codex Calixtinus“, que foi, por muitos séculos e até hoje, a base de todos os outros guias.. Com o aumento no número de peregrinos, junto com os fiéis vieram também ladrões, salteadores de estradas e todos os tipos que, com sua esperteza, abusavam da boa fé dos andarilhos. Para manter a segurança do Caminho, criou-se em 1170, em Cáceres, a Ordem dos Cavaleiros de Santiago cujos cavaleiros eram encarregados da vigilância da rota através da Espanha. A Ordem dos Templários, um pouco mais antiga, e com a mesma finalidade de proteger os lugares santos, veio também mais tarde proteger o Caminho.

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Nos séculos XIII, XIV e XV o fluxo de peregrinos chegou a atingir cerca de quinhentos mil caminhantes por ano. Entre estes vieram São Francisco de Assis em 1213, a princesa Ingrid da Suécia em 1270, Santa Isabel de Portugal em 1326, Alfonso XI de León e Castela em 1332, Santa Brígida da Suécia em 1340, o pintor holandês Jean Van Eyck em 1430, os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela em 1488, Hugo IV duque de Borgonha, Eduardo I da Inglaterra, Carlos I e Felipe II em 1554. Foi nesta época que a rota principal a partir de Puente la Reina, pelo grande número de estrangeiros (franceses ou vindo até este caminho através da França), passou a ser conhecida como Caminho Francês.

A história do Caminho
Do Século XVI ao Século XX


No século XVI decaiu o interesse pela peregrinação. Os exploradores portugueses e espanhóis viajavam por todo o mundo, descobrindo novos oceanos e novas terras. Atrás deles iam não só colonos, mas também comerciantes holandeses e corsários ingleses. E os corsários saqueavam não apenas as terras recém descobertas no Novo Mundo, mas também as costas da Europa.

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Em 1589 ocorreu um episódio que veio romper a paz de Compostela. Sir Francis Drake, o mais famoso dos corsários britânicos sitiou a cidade de La Coruña. Os sacerdotes que cuidavam do túmulo de São Tiago, assustados com a notícia de que os ingleses já haviam desembarcado nas costas galegas, ocultaram cuidadosamente as relíquias sagradas. E o fizeram de tão secretamente que ninguém mais soube de seu paradeiro por quase três séculos.

Durante a realização de algumas obras no subsolo da catedral de Santiago em 1879, as relíquias do apóstolo foram reencontradas, e desde então permanecem expostas ao público. Entre 1946 e 1959, novas escavações descobriram o sepulcro do bispo Teodomiro, do século IX. Mais tarde foram descobertos os restos da antiga necrópole do século I, e as sepulturas de Teodoro e Atanásio, discípulos de Tiago.

Gradualmente o interesse pela peregrinação foi se reativando. Em 1982 o papa João Paulo II tornou-se o primeiro papa a peregrinar a Compostela. Três anos depois, em 1985, a UNESCO declarou Santiago de Compostela como “Patrimônio da Humanidade”. Na mesma ocasião, o Caminho de Santiago recebeu o título de “Primeiro Itinerário Cultural Europeu”.

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Em 1988 o governo de Navarra passou a zelar oficialmente pelo Caminho, proibindo o tráfego de veículos motorizados na rota histórica, e a proibindo qualquer construção a menos de trinta metros do trajeto. O fluxo de peregrinos aumentou de maneira mais intensa nos últimos anos. Em 1989 o papa retornou a Compostela e, fazendo um apelo à juventude, conseguiu reunir quinhentas mil pessoas nos arredores da cidade.

A origem do Ano Santo

No ambiente cultural e social da Idade Média européia, a consciência da realidade do pecado e a necessidade de liberar-se de sua culpa eram sentimentos bem mais concretos e presentes na mente da população do que hoje. Na época medieval eram concedidas indulgências, isto é, o perdão dos pecados, aos fiéis que participavam das Cruzadas, aos que ajudavam a construir um templo, e também a todos aqueles que peregrinavam a um santuário para cultuar as relíquias de um santo. Entretanto havia algumas bulas papais que davam permissão a que pessoas de classes mais altas enviassem alguém para peregrinar em seu lugar. Obtinham assim o perdão “por procuração”, sem precisar realizar pessoalmente a caminhada.

O papa Calixto II elevou a cidade de Santiago de Compostela à dignidade metropolitana (sede de um arcebispado) e, em 1119, outorgou à Catedral de Santiago o privilégio do Jubileu Pleníssimo ou Ano Jubilar, mais conhecido como Ano Santo. Calixto II tinha fortes ligações com a Espanha: era cunhado de Dona Urraca, influente e poderosa rainha de León e Castela. Dona Urraca era filha do rei Alfonso VI, e mãe do rei Alfonso VII, dois monarcas espanhóis que muito apoio deram às peregrinações a Compostela.

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Além de conceder o Jubileu, o papa declarou a Peregrinação Compostelana como uma das chamadas peregrinações maiores, juntamente com as de Roma e Jerusalém. O primeiro Ano Santo, no qual foi dado o perdão aos peregrinos, foi o ano 1126.

O papa Alexandre III, em 1179, decretou perpétuo o Jubileu de Santiago de Compostela. Seu objetivo foi prestigiar o santuário e proporcionar aos fiéis peregrinos um meio de obter o perdão de seus pecados. E em 1332 o papa João XXII, em Avignon, editou uma bula concedendo indulgência também às pessoas que ajudassem os peregrinos compostelanos com hospedagem ou esmolas.

É considerado Ano Santo Compostelano todo aquele em que o dia 25 de Julho, dia do martírio de São Tiago, cair em um domingo. Além destes, em ocasiões especiais, pode ser declarado um Ano Santo Compostelano extra, como ocorreu em 1885 e em 1938.

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O Ano Santo Compostelano, portanto, não só é mais freqüente, como é mais antigo que o Ano Santo Romano, que foi decretado pela primeira vez no ano 1300. Tradicionalmente, durante o Ano Santo Romano estão suspensas todas as outras indulgências não ligadas diretamente à cidade de Roma, exceto o Ano Santo Compostelano.